Gosto
dos números porque me levam ao infinito.
Valeska
Jorge Luis
Borges sabia muito bem que, apesar de nosso orgulho e petulâncias
folclóricas, todas as línguas são igualmente
inexpressivas. Talvez por isso encarava com simpatia e, mesmo
com interesse carinhoso, algumas tentativas – frustradas,
é claro – de criar um idioma perfeito, universal.
Borges identificou o que considerava a razão principal
e definitiva desse fracasso: «não sabemos o que é
o universo» . Não o sabemos, e nunca saberemos, seja
porque o universo não tem, de fato, um propósito
orgânico e unificador, ou porque, ainda que o tivesse, estaríamos
de todo modo impossibilitados de conhecê-lo, de penetrar
no «dicionário secreto» de Deus. Não
obstante, esta impossibilidade não deve – destacava
Borges, «dissuadir-nos de planejar esquemas humanos»
.
A impossibilidade de uma língua perfeita e universal é
também a impossibilidade de um pensamento perfeito e universal.
Por isso, talvez não seja injusto perceber a filosofia
como as sucessivas tentativas de encontrar esquemas humanos que
nos permitam decifrar o enigma do universo, munidos da percepção
de que tal discernimento é impossível.
De alguma forma, o universo está composto de outros infinitos
universos «menores», igualmente indecifráveis
(o leitor me perdoará os conceitos paradoxais de «infinito
menor» e «universo menor», mas para certos esquemas
humanos eles são incontornáveis). E dentro de cada
universo, a mesma coisa: outros infinitos universos infinitos,
também indecifráveis. A educação é
um dos universos indecifráveis do indecifrável universo.
Este livro é um esforço para pensar alguns esquemas
que nos permitam elucidar alguns dos indecifráveis universos
que compõem esse não menos indecifrável universo
a que chamamos educação. Ele é um conjunto
de esquemas menores, para pensar problemas infinitos.
O livro reúne trabalhos apresentados no II Encontro Internacional
de Filosofia e Educação / Fórum Sudeste de
Ensino de Filosofia que teve lugar na UERJ, no Rio de Janeiro,
entre os dias 9 e 11 de setembro de 2004. Na verdade, o volume
que o leitor tem nas mãos é um de três. Não
há aqui reminiscências pitagóricas de número
perfeito. Poderíamos tê-los organizado diferentemente,
por exemplo, em apenas um alentado volume, ou em dois medianamente
volumosos. Em certo sentido – por exemplo, em relação
à infinitude dos problemas tratados, a diferença
é irrelevante. Mas preferimos volumes menores, porque assim
são mais compactos, coesos, conectados, muito embora não
estejamos perante um livro feito de acordos, ou de consensos.
Ao contrário, o leitor perceberá divergências
não apenas no que diz respeito às posturas e aos
referenciais teóricos dos textos aqui apresentados, mas
em relação às próprias problematizações
consideradas filosoficamente relevantes. Mais uma vez, não
poderia ser de outro modo, se o universo, os problemas e os modos
de enfrentá-los são infinitos. Diria que o único
elemento que perpassa todos estes trabalhos seria, talvez, o pressuposto
do interesse pelo enfrentamento filosófico do infinito
universo educacional.
A divisão dos trabalhos nos três volumes –
como todo esquema humano – é arbitrária e
responde a uma combinação de critérios tais
como temática, estilo, perspectiva, ênfase. A trilogia
foi composta mais diretamente em torno de três temáticas:
Políticas do Ensino de Filosofia; Lugares de infância:
letras, escola, filosofia; e Filosofia: caminhos para seu ensino.
No primeiro volume, os textos versam sobre questões mais
amplas, sobre as relações entre educação,
cultura e filosofia. No segundo, reúnem-se escritos que,
de alguma forma, têm uma forte referência à
infância. Por fim, o terceiro compõe-se de trabalhos
que, em certa medida, versam sobre a circulação
do discurso filosófico, suas condições de
«ensinabilidade».
O volume Políticas
do Ensino de Filosofia está dividido em três partes.
Na primeira, Políticas da educação, estão
trabalhos que elaboram, desde diversas perspectivas teóricas,
as categorias do ensinar e do aprender e, em particular, do ensinar
e do aprender filosofia – o que Antonia Birnbaum, na palestra
de abertura do evento, realiza de maneira particularmente elegante,
inspirada na trajetória de Jacques Rancière: em
que medida o percurso filosófico que é o seu dá
pistas para se pensar um caminho de aprendizado em filosofia?
Já em «Notas por uma pedagogia da opressão»,
Hilan Bensusan trata de um tema que, embora à primeira
vista possa parecer gasto, é surpreendentemente inexplorado:
depois de explicitar as marcas que constituem uma pedagogia da
opressão, pergunta-se o que os educadores profissionais
poderiam perguntar-se com certa freqüência: como aprendem
a permanecer indiferentes à opressão aqueles que
oprimem? A interrogação basta. Em «Uma (Maldosa)
Crítica às Escolas ‘do Bem’»,
Rui Mayer provoca, sem condescendências, os professores
que confiam e apostam na escola e na crítica: a partir
da leitura de Althusser e Foucault, busca sacudir as consciências
tranqüilas e a auto-justificação. Finalmente,
Vera Waksman, em «O mal estar na educação:
variações sobre o mestre e o discípulo»,
retrata, com Rousseau e Nietzsche, dois modelos de mestre, «um
que conduz para onde se deve ser; outro que deixa ser, que está
aberto à sorte do encontro». O desafio a que nos
convoca é o de pensar, entre esses dois modelos, algumas
tensões que se enraízam em solo educacional: público-privado,
homem-cidadão, liberdade-responsabilidade.
A segunda parte desse primeiro volume, intitulada Filosofia, cultura
e sociedade», está composta de outros quatro trabalhos.
Maurício Rocha, em «Inteligência, trabalho
imaterial e ensino de filosofia», expõe desde o título
sua principais referências: Negri e Deleuze, ainda que não
se esquive do espinhoso tema de uma filosofia nacional e das ressonâncias
de tal discussão no ensino de filosofia e, mais amplamente,
na sociedade e na cultura brasileiras. O texto de Ricardo Sassone,
«A intervenção ‘estético-pedagógica’
e sua fundamentação no marco de uma ‘estética
aplicada’ num contexto institucional-curricular» apóia-se
num referencial teórico próximo ao do Maurício,
porém interessado na dimensão estética da
intervenção pedagógica: em que medida essa
intervenção afirma uma estética aplicada?
Nesta mesma seção, em «Da colonização
e da emancipação do pensamento», Rodrigo Dantas
enfrenta frontalmente o que, a meu ver, é uma das questões
filosóficas centrais do pensamento marxista de nosso tempo:
que sentido têm hoje conceitos como crítica e emancipação?
Que significa politizar?, Qual o estatuto das verdades ensinadas?
Por último, Rosi Giordano pensa o lugar do ensino de filosofia
na cultura, desde uma perspectiva geral e específica para
a Amazônia, onde vive e trabalha: «A Filosofia nos
(con)fins dos espaços» é um convite para pensar,
desde o local e também o global, a contribuição
que a filosofia e seu ensino poderiam oferecer para aplacar as
formas com que Auschwitz se presentifica entre nós, aqui
e em toda parte.
Integram a terceira e última parte, Entre Filosofia e Educação,
três trabalhos. Em «O Eros de uma educação
filosófica”», Lílian do Valle trata
das relações entre paixão pelo conhecer e
sentido de educar: o que pode ainda mover o professor, num contexto
cada vez mais desprovido de sentido e em condições
crescentemente adversas? Em que medida é possível
fazer da paixão pelo conhecer uma força para a prática
da educação? Em seguida, “Filosofia: uma educação”,
de Nicolas Go, examina, com o auxílio de Gramsci e Althusser,
as condições de possibilidade do que se poderia
chamar de filosofia popular. Coloca em questão os pressupostos
da divisão entre senso comum e conhecimento filosófico,
em busca de um terreno a partir do qual pensar uma educação
filosófica para todos. Finalmente, Sílvio Gallo
faz um vivo exercício de filosofia em «O macaco de
Kafka e os sentidos de uma educação filosófica»,
onde cabe ao macaco a interrogação, dirigida aos
«doutores de nossa educação», sobre
o sentido de colocar a filosofia a serviço da educação
da cidadania: não seria essa uma espécie de deformação?
Também
o tomo Lugares da infância: letras, escola, filosofia está
organizado em três seções. A primeira, A infância,
entre a literatura e a filosofia acolhe três trabalhos interessados
em pensar o conceito de infância que, coincidentemente,
dialogam com o poeta mato-grossense Manoel de Barros. Bernardina
Leal, em «Leituras da infância na poesia de Manoel
de Barros» examina algumas de suas figuras da infância
e as possíveis repercussões educacionais dessas
figuras. Num exercício de ser criança, propõe
pensar a infância como uma metáfora do novo e a gênese
de um outro pensar na educação. Pedro Pagni nos
apresenta «As memórias da infância e as vicissitudes
do desejo de sabedoria na experiência educativa: retratos
literários e questões filosóficas para educadores».
Ele coloca em paralelo a categoria de infância segundo Graciliano
Ramos e Manoel de Barrros: se as Memórias inventadas de
Manoel de Barros procuram «restaurar o riso e tornar mais
leve a experiência com o passado», a obra de Ramos
permite discutir o papel político da experiência
educativa perante os impasses da educação atual.
Finalmente, em «A infância da educação:
o conceito devir-criança», procurei jogar com as
Memórias inventadas a partir da invenção
conceitual de Deleuze. Busquei pensar a infância para além
da cronologia, re-situar seu lugar na educação:
a infância como o que educa, e não apenas como o
que precisa ser educado; uma infância da educação
e não só uma educação da infância.
A segunda parte desse volume, Literatura e ensino de filosofia
contém três reflexões que destacam a questão
literária. Na primeira, «Literatura e educação
filosófica», Diego Pineda mostra como a relação
entre conteúdo filosófico e forma literária
adquiriu, ao longo da tradição, formas diversas
que, por sua vez, supõem concepções distintas
do que seja o trabalho filosófico; e examina o uso de textos
literários no exame de problemas filosóficos através
dos exemplos de Cervantes, Conan Doyle e George Orwell. As duas
últimas são de autores de histórias para
filosofar com crianças recentemente publicados. Paula Ramos
reflete sobre sua própria experiência de escritora
de histórias para pensar, interrogando-se sobre os conceitos
de história e pensar que atravessam essa tentativa para
pensar o sentido da filosofia e da literatura infantil hoje. Em
«Do texto à gênese do filosofar», Sérgio
Sardi apresenta suas histórias de Ula, buscando pensar
as condições originárias do gesto filosófico
e justificar a recriação de Ula.
A terceira e última parte do volume, Filosofia para crianças,
traz contribuições de professores longamente engajados
com essa proposta. Ann Sharp escreve «A Outra Dimensão
do Pensamento que Cuida», que apresenta o cuidado como um
valor fundamental no interior do que denomina uma comunidade de
investigação filosófica – espaço
democrático e estético, em que um grupo de crianças
investiga cooperativamente problemas comuns e onde o cuidar, como
forma de pensar e de agir no mundo, tem o papel fundamental. Em
«A Escola do Terceiro Reino Alegre», David Kennedy
engaja-se na fenomenal tarefa de re-pensar a escola, buscando
explicitar as condições, diretrizes, estrutura e
forma que assumiria a instituição, ao fazer-se um
novo espaço e um novo tempo para que as relações
entre crianças e adultos estejam marcadas pelo diálogo.
Em seu texto, Marcos Lorieri analisa os vinte anos de prática
filosófica com crianças e jovens no Brasil, descrevendo
a inserção do programa de Lipman, oferecendo fontes
para estudar essa tentativa e outras propostas de trabalho e pesquisas
relativas à filosofia no ensino fundamental. Encerrando
a seção, Olga Grau, analisa, em «De tabulas
rasas a sujeitos encarnados», algumas das metáforas
surgidas na modernidade para representar a infância, contrapondo-as
ao conceito de infância pressuposto no Programa de Filosofia
para Crianças e na comunidade de investigação.
O terceiro
volume, Filosofia: caminhos para seu ensino também está
dividido em três partes. Na primeira, Das condições
do ensino de filosofia, Alejandro Cerletti reflete sobre as condições
filosóficas para um ensino filosófico (de filosofia).
Trata, em «Ensinar filosofia: da pergunta filosófica
à proposta metodológica», de pensar o filosófico
não apenas como exigência de uma metodologia que
não se submeta à técnica, mas também
como forma de relação do professor com os textos,
a instituição e, sobre tudo, com seus alunos. O
texto de Celso Favaretto, «Uma perspectiva para o ensino
de filosofia», tem duas partes claramente definidas: a primeira
analisa as relações entre filosofia, ensino e cultura,
situando a filosofia, interrogando-se sobre a contribuição
específica da disciplina escolar para a vida, pessoal e
social; a segunda discute, mais especificamente, as condições
mínimas do trabalho filosófico no ensino médio:
como favorecer a elaboração teórica e a criticidade.
Por sua vez, em «É possível ensinar a filosofia?
E, se possível, como?», Danilo Marcondes examina
duas concepções não excludentes de filosofia,
a histórica e a analítica, que podem estar na base
do ensino de filosofia, discutindo a possibilidade, as condições
e os objetivos desse ensino. Finalmente, Ricardo Navia, em «Ensino
Médio de Filosofia nas Presentes Condições
Culturais e Sociais de Nossos Países», propõe
pensar a especificidade de América Latina nesta problemática.
Depois de descrever e analisar o que considera o neo-conservadorismo
pedagógico dominante na região, sugere «contra-condições»
que uma educação progressista e o ensino de filosofia
em particular poderiam explorar para uma «reviravolta dialética».
Na segunda parte, Do ensino médio ao ensino superior, são
apresentados outros quatro textos. Em «O Ensino da Filosofia
como uma Estratégia contra a Tarefa da Interdisciplinaridade»,
Charles Feitosadiscute o sucesso atual da noção
de interdisciplinaridade, ligado às Diretrizes Curriculares
dos Cursos de graduação em filosofia, como sintoma
de uma crise muito mais profunda e radical na própria filosofia,
que esconde um injustificado desejo de totalidade. Em «Licenciatura
ou bacharelado e outras bifurcações no ensino de
filosofia», Elena Teresa José aborda criticamente
os atuais planos de curso de filosofia universitário e,
particularmente, a dicotomia licenciatura x bacharelado, analisando
aí as relações entre ensino e investigação,
as metodologias em uso e a clássica dicotomia entre ensinar
filosofia ou ensinar a filosofar. Em «A filosofia no vestibular:
expansão do ensino e impasses metodológicos»,
Humberto Guido apresenta e reflete sobre a experiência da
Universidade Federal de Uberlândia de introdução
da filosofia no vestibular, criticando o elitismo da proposta
e a imposição precoce de uma especialização
impossível aos jovens. Fecha essa segunda parte «Filosofia
em tempos de adrenalina», de Ingrid Müller Xavier,
que apresenta dois aspectos da atual crise de paradigmas: a crise
da cultura letrada frente à cultura imagética e
a crise da interioridade frente à exterioridade e a conseqüente
«corpolatria», buscando analisar como o ensino de
filosofia pode responder a eles.
A última parte do livro é denominada Outros nomes
e lugares para a filosofia? Nela está o texto de Filipe
Ceppas, «Sobre as práticas filosóficas extra-acadêmicas»,
que reflete sobre o atual boom de lugares não tradicionais
para a filosofia: cafés, romances, terapias, teatro, crianças
etc., analisando a moda a partir de categorias como esclarecimento
e emancipação. Em «A fundamentação
filosófica da Olimpíada Argentina de Filosofia»,
Marcelo Lobosco discute a experiência, que tem como lema
o famoso sapere aude kantiano, explicitando seus objetivos pedagógicos,
eixos temáticos, métodos de trabalho e bibliografia.
Encerrando o volume e também a trilogia, o texto «O
Olimpismo e a filosofia» é uma tele-conferência
de Stéphane Douailler para as Olimpíadas Internacionais
de Filosofia que tiveram lugar em Buenos Aires, em maio de 2003.
Trata-se do único texto não apresentado em nosso
Encontro, no qual Douailler busca as razões do olimpismo
atual e suas relações mais ou menos estreitas com
a filosofia.
Eis uma apertada apresentação do que o leitor poderá
encontrar nesses três primeiros volumes da coleção
«Sócrates». Esquemas humanos, menores, filosóficos,
para decifrar o indecifrável. Esperamos continuar com esquemas
igualmente menores e filosóficos. E que eles sirvam de
estímulo para que você, leitor, continue a pensar
os seus.
Finalmente, alguns agradecimentos. A tarefa de organizar este
livro não foi fácil, assim como a de traduzir e
editar em muito pouco tempo os trabalhos que o compõem.
Agradeço especialmente aos colaboradores que enviaram seus
trabalhos com presteza; aos tradutores que, desta vez, não
traíram apenas os autores, mas também o seu próprio
tempo de elaboração. E finalmente a Antônio
De Paulo que deu uma acolhida simpática e enérgica
ao projeto. É pelo esforço e o trabalho conjunto
de muita gente que conseguimos lançar os volumes durante
o próprio evento e entregá-los com satisfação
e alegria aos seus participantes.
Walter Omar Kohan
Profesor titular de Filosofía de la Educación,
Universidad del Estado de Río de Janeiro, Brasil. 2004